domingo, 22 de janeiro de 2012

O Fruto do Espírito - Fidelidade.

Fidelidade.

Por Alexfábio Custódio.

Para aproveitar melhor essa matéria leia os artigos anteriores: Introdução, Amor, Alegria, Paz, Paciência, Benignidade e Bondade.


(Os personagens desse conto são fictícios, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência).

Os finais de semana em que Priscila estava em casa eram especiais para a família do pastor Júlio. Ele e sua esposa Amanda estavam se acostumando a ver a “sua menina” somente em dois finais de semana por mês.

A garota estava trabalhando e cursando faculdade de direito na cidade vizinha. Ela revezava os finais de semana entre a família e os deveres do curso.

As suas visitas eram sempre um pretexto para a casa pastoral se encher de visitas. Amigos, vizinhos e a membresia da igreja gostavam de rever a garota e colocar a conversa em dia.

Esse teria sido mais um final de semana festivo, porém, um revés desagradável mudou a história:

Os jovens da igreja, aproveitando a ocasião da visita da filha do pastor, organizaram um almoço na casa pastoral. Tudo corria em um clima de alegria e descontração quando, subitamente, um gemido forte seguido por um baque de queda silenciou a todos os presentes.

O pastor Júlio estava caído ao chão próximo à sua cadeira, com o corpo encolhido e uma fisionomia de quem estava com muita dor. Alexandre, o líder do grupo de jovens, o socorreu rapidamente. Em poucos minutos eles estavam no hospital.

Infelizmente todos já estavam acostumados a acompanhar o pastor ao hospital, há alguns anos ele sofria com um câncer no estômago. Não demorou muito tempo para um dos médicos trazer notícias sobre o paciente:

- O Júlio vai ter que ser transferido para um hospital mais preparado para exames e uma eventual cirurgia. As dores já diminuíram e nós estamos providenciando uma ambulância.

Em poucas horas o pastor Júlio já estava acomodado em um quarto do maior hospital da mesma cidade onde a sua filha estudava e morava. Sua esposa Amanda resolveu ficar na república universitária onde sua filha estava alojada, para ficar mais próxima do marido. Alexandre voltou para casa com as orientações para o funcionamento da liturgia da igreja, e com pedidos de orações pela saúde do ministro.

Após alguns exames Júlio foi levado para um quarto em que já havia outro paciente. Um senhor que parecia alguns anos mais velho que o pastor, nesse momento ele dormia profundamente e nem percebeu a chegada do companheiro de quarto.

Depois de algumas horas o homem despertou e percebeu que já não estava mais sozinho no quarto. Ele estendeu uma mão e se apresentou:

- Olá, meu nome é Abraão.

- Prazer, eu sou Júlio.

- O que te traz aqui companheiro?

- Fortes dores abdominais devido a um câncer de estômago. E o amigo?

- Câncer de intestino, provavelmente terei que me submeter a uma cirurgia.

Feitas as apresentações o homem voltou a sua atenção para o aparelho de televisão do quarto. Algum tempo depois Abraão percebeu que Júlio estava lendo o pequeno exemplar do novo testamento que estava na cabeceira da cama. Com um tom sarcástico na voz ele disse:

- Júlio, você espera realmente achar algum consolo ou resposta nesse livrinho?

- Claro que sim, afinal a bíblia é a palavra revelada de Deus aos homens.

- Você é evangélico?

- Pela misericórdia de Deus e favor divino, sou evangélico e pastor de um rebanho a mim confiado por Deus.

- Pastor? Tem um reverendo dividindo o quarto comigo.

- Sim, algum problema?

- Por favor, não se ofenda Júlio, mas eu não compartilho de suas crendices e não gosto muito dos seus companheiros de profissão.

- Não estou ofendido, você tem o direito de não crer, mas devo alertá-lo que você cometeu um equívoco.

- Qual?

- O ministério pastoral não é uma profissão, e sim uma vocação divina.

- A ilusão pueril da vocação. Sabe que eu já vivi isso na minha vida? Quando decidi ser professor eu achava que estava destinado a mudar vidas! Eu imaginava que conseguiria guiar as gerações futuras para a melhoria da sociedade.

- E o que aconteceu para apagar esse sentimento?

- As desilusões e os fracassos fazem você se acomodar. Resolvi investir em minha carreira, me tornei um pesquisador renomado e professor acadêmico. Eu te digo Júlio que essa história de vocação é um barco à deriva no meio de uma tempestade, uma hora ele afunda! E se você não estiver preparado ele te leva junto.

Nesse momento uma enfermeira entrou no quarto para entregar os remédios dos pacientes, depois disso Abraão prosseguiu:

- Me diga uma coisa reverendo, o dízimo daqueles pobres coitados é suficiente para pagar o seu tratamento?

- O amigo não se ofenda, mas o professor universitário acabou de falar como um ignorante.

- Como assim?

- Abraão, se eu aparecesse na universidade onde você leciona e resolvesse alterar a grade curricular, o que você me diria?

- Que seria um absurdo alguém que não conhece o meio acadêmico querer bancar o diretor.

- Da mesma forma, todos vocês que dizem: “Os crentes dão dinheiro para pastor!” Não conhecem o modo administrativo de uma igreja evangélica. Nós temos tesouraria, temos prestação de contas aos fiéis, nossos livros-caixa ficam à disposição de qualquer um dos membros. Não vou negar que de vez em quando surge por aí algum charlatão usando o nome de “pastor”, mas em todo o lugar tem esse tipo de vigarista. Ou no meio acadêmico é diferente?

- Realmente não é diferente amigo.

- Posso te contar parte da minha história?

- Claro.

- Eu já estava casado e minha esposa Amanda estava grávida de nossa filha quando eu recebi a chamada de Deus para o ministério. Eu era gerente de uma grande firma de contabilidade, nós tínhamos uma situação financeira muito boa, e relutei muito para aceitar o chamado. Foram quase dois meses lutando contra a vontade divina, mas finalmente eu me entreguei à obra a mim destinada.

- Saiu do emprego?

- Saí, e em pouco tempo estávamos em uma cidadezinha do interior começando um trabalho missionário. Foram anos de aperto, Graças á misericórdia divina nunca passamos necessidades, mas também nunca tivemos grandes regalias.

- Eu não conseguiria viver assim! Perder anos de minha vida...

- Perder anos? Você está enganado amigo. Está certo que por muitas vezes eu e minha família tivemos que orar para Deus enviar mantimentos, minha menina teve que se acostumar a sempre usar roupas simples e ter poucos brinquedos, minha mulher sempre trabalhou muito para mos ajudar. Entretanto, eu já perdi a conta de quantas pessoas tiveram suas vidas transformadas através de nosso ministério! Quantos jovens saíram do mundo das drogas, quantos casais se reconciliaram, quantas pessoas que viviam em um mundo de pecados, e que agora vivem como cidadão do céu! Abraão, isso não tem preço!

- E você ainda vive assim?

- Hoje sou pastor de uma igreja mediana, tenho minha renda, mas não é nada exorbitante. Só estou aqui do seu lado por que um empresário, que é membro da igreja, se propôs a pagar o plano de saúde.

No dia seguinte, durante o horário de visitas, muitas pessoas se revezavam para ver o pastor Júlio. Alguns membros da igreja, Priscila (que reconheceu a Abraão, mesmo ele não sendo seu professor), e sua esposa Amanda. Todos oravam pelo pastor e trocavam algumas palavras com Abraão. Quando Amanda se despediu perguntou se podia orar por Abraão também, ele concordou meio sem jeito e agradeceu a gentileza. Alguns minutos ele disse:

- Júlio, eu estou me sentindo um derrotado. Você imagina quantos colegas de profissão e alunos eu tenho? Pessoas que freqüentam a minha casa e saem para beber comigo, contudo, há dias que estou internado e ninguém apareceu para me visitar. Não consegui dormir essa noite pensando na sua história. E se eu tivesse lutado um pouco mais por meu sonho? Talvez não fosse esse homem ranzinza e solitário. Como você conseguiu manter-se fiel ao propósito?

- Somente pela fé meu amigo. Fidelidade é a qualidade da pessoa que crê fortemente em algo. Por muitas vezes eu desejei abandonar tudo, porém, o Senhor me consolava e me dava forças para prosseguir. Sabe o que faltava em seu barquinho da vocação? A segurança da âncora da fé!

- A fé não funciona em homens como eu.

- Funciona sim. Vou te dar um exemplo: Você conhece a história do patriarca que tem o seu nome?

- Abraão? Eu sei que ele é o pai dos judeus.

- Muito mais que isso. Abraão era um homem rico e bem estabelecido quando recebeu um chamado de Deus para peregrinar por uma terra que ele não conhecia. Deus o estava convidando a abandonar sua zona de conforto e viver apenas confiando na direção divina. Durante anos ele viveu acreditando nas promessas, o que lhe rendeu o título de pai da fé.

- Pai da fé? Então ele tem filhos de fé?

- Todos que crêem nas promessas de Deus são filhos de Abraão pela fé. Leia essa passagem.

Júlio entregou o novo testamento aberto e marcado por uma caneta na passagem de Zaqueu o publicano (Lucas 19. 1 a 10). Após a leitura o professor disse:

- Quer dizer que basta crer em Jesus para ser filho da fé de Abraão?

- Não somente isso, para ter seus pecados perdoados e a certeza da comunhão com Deus.

- É por isso que você não demonstra medo? Mesmo com o câncer?

- A minha vida está nas mãos de Deus amigo, essa é a minha âncora, é o que me mantém firme mesmo nas tribulações.

Abraão se calou sem argumentos. O resto do dia foi marcado por exames de ambos os pacientes. No final da tarde o pastor recebeu alta e já estava com uma pequena cirurgia marcada para em poucos dias. Quando saia do hospital com a sua esposa uma enfermeira o chamou dizendo:

- Pastor, o senhor Abraão deseja falar com o senhor.

Quando Júlio entrou no quarto Abraão já foi anunciando uma decisão:

- Hoje vou passar por uma operação muito complicada, os médicos me disseram que corro risco de morte. Te chamei aqui amigo por que decidi que eu quero viver. Primeiro, decidi que quero viver pela fé, mesmo se eu morrer na mesa de operação. Segundo, se Deus permitir que eu viva eu quero servir com fidelidade a Jesus e aos meus sonhos.

- Que boa decisão Abraão.

- Você tinha razão amigo – disse Abraão mostrando o novo testamento – Nesse livro eu encontrei consolo e palavras eternas. Você pode orar por mim meu pastor?

“Que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Além disso, requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel” (1 Coríntios 4. 1 e 2).

Fé ou fidelidade? Em algumas traduções bíblicas a sétima característica do Fruto do Espírito está relacionada como fé. Entretanto, a fé é a confiança irrevogável na existência, no favor e no senhorio de Deus. Se pela fé reconhecemos que Deus é Senhor, é mais correto dizer que o Espírito nos concede a capacidade de sermos fiéis a Ele. Fidelidade é a qualidade do fiel.

É possível haver fidelidade, sem, contudo, haver compromisso com Deus. Exemplos: Pessoas são fiéis a clubes de futebol ou aos seus cônjuges, mesmo não vivendo sobre o senhorio de Deus. O que diferencia então a fidelidade como parte do Fruto do Espírito?

A abrangência do pacto. Muitas pessoas trocam de times após um rebaixamento, ou a extinção da equipe. Muitas pessoas negaram as suas convicções em momentos aflitivos ou d imposição. Porém, o compromisso do cristão com seu Salvador é algo tão profundo, que até mesmo o risco de morte não o impede de ser fiel.

A história do cristianismo é marcada por relatos de fieis mártires que entregaram as suas vidas aos algozes, porém, não negaram ao Salvador que conduz à vida eterna. A fidelidade dessas pessoas gerava novas conversões em volta de suas mortes.Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Apocalipse 2. 10) .

Como despenseiros de Deus nós também temos de ser fiéis com os ensinamentos e as palavras de nosso Senhor. Veja a recomendação Paulina: “...sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza” (1 Timóteo 4. 12). O cristão deve ter uma vida exemplar diante da sociedade. Como pretendemos ganhar as pessoas com nossas palavras se as perdemos com nossos gestos? A fidelidade aos padrões morais, éticos e sociais fará as pessoas enxergarem cristo em cada um de nós.

Muitas vezes durante a caminhada cristã vivemos ocasiões adversas. São lutas e tribulações inesperadas e destruidoras. Nesses momentos é natural que fraquejemos na fé, contudo, a confiança em um Deus forte e poderoso nos mantém de pé. O momento de escassez surge para provar a sua fidelidade. Mantenha-se firme, os heróis da bíblia venceram pela fé.

Vençamos as tribulações, as tentações, as privações, mantenhamos a fidelidade. E, um dia, nós ouviremos essa sentença:

“E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mateus 25. 21).
           

Nos ajude com o seu comentário.

Entre em contato conosco:








0 comentários:

Postar um comentário

A sua opinião é muito importante para a gente.
Comente, critique, deixe a sua dica para que o Sementes do Evangelho seja um blog relevante.